23/01/2010

A pessoalidade no serviço público

Esta semana fui procurado por um amigo que gostaria de comigo conversar.
Depois de muito papo sobre como havíamos passado natal e réveillon, mais conversa sobre política estadual e local, afinal ambos gostamos desta área.
Finalmente pergunto ao amigo o que o levou a me procurar e esclarece:
_ Quero lhe fazer um pedido!
Disse isso já meio desajeitado porque na conversa anterior eu já havia comentado que primava por uma gestão técnica, ética e impessoal.
Esclareceu então o que desejava: solicitar a remoção de uma colega professora de uma unidade de ensino para outra.
Fiquei a pensar como uma educadora a quem foi delegada, entre outras a tarefa de formar cidadãos, esclarecendo-os de seus direitos, preferiu solicitar a um político meu amigo para encaminhar um direito seu a ter que preencher um requerimento e seguir os trâmites legais da administração pública.
Como não se trata de um caso isolado em meu dia-a-dia, só confirmei o que se passa na cultura brasileira em relação à gestão pública: é preferível buscar a ajuda de quem conhece os gestores a ter que reconhecer direitos, lutar por eles e ser verdadeiro cidadão.
Lembrei-me, assim, das leituras de Sérgio Buarque de Holanda e da caracterização do “homem Cortez”, para definir a personalidade do brasileiro, que para resolver seus problemas se vale da afetividade e das relações pessoais. Nada mais é do que o clientelismo tão comum nas relações políticas brasileiras.
Reforçar essa cultura, o que não é incomun, é prestar um desserviço à sociedade brasileira, e dificultar a construção de uma sociedade justa e democrática, pois enquanto ajuda-se  poucos a "furar a fila”, muitos, a maioria, continuarão a esperar pela efetividade de seus direitos.
Claro que falar tudo isso aos amigos e negar ao atendimento aos pleitos, haja vista o quanto esses valores estão impregnados em nossa cultura, é quase como pedir para cortar as relações pessoais e/ou familiares, pois para estes, a separação que deve existir entre o público e o privado não passa de falta de amizade e de desconsideração com os mais próximos.
Nesse caso, uma boa dose de paciência, tolerância e “jogo de cintura” fazem muito bem, no entanto, sem perder de vista os princípios que devem orientar os atos e atitudes do gestor público. Do contrário, passamos de construtores para negadores da ainda incipiente cidadania brasileira.



Professor Msc. Aldenir Rocha

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