21/01/2010

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.


Marta Medeiros.

6 comentários:

Anônimo disse...

Nossa amiga quanta inspiração para postar esse poema?vc não vai perder a promo no meu blog né?participe!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Unknown on 22 de janeiro de 2010 às 15:10 disse...

Como gostei de "A dor que dói mais"! Muito criativo e interessante!
Parabéns, pela postagem!

elen vanessa disse...

ameiii, ja li isso mais de mil vezes, mas sempre que me deparo com esse texto, leio dinovo, saudades de quem mora longe, ah saudade heheheh
mandou bem edi

Edilza Pinheiro on 24 de janeiro de 2010 às 11:13 disse...

Que bom que gostou kiriidaa!Adoroo.
E eu sempre mando bem kkkk Bj.

Márcia Sonoita on 5 de setembro de 2010 às 09:52 disse...

Muito lindo, franco e de muito bom gosto amei viu, parabéns!

Márcia Sonoita on 5 de setembro de 2010 às 09:52 disse...

Muito lindo, franco e de muito bom gosto amei viu, parabéns!

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